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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Calorosamente

O dia estava quente e o suor em seu corpo não se esgotava. Seu paninho já estava completamente molhado e não ajudava mais.
A dificuldade para falar em público era tanta, que ela se arrependeu profundamente de ter entrado no grupo de teatro.Chegou sua vez de falar e era apenas uma frase.
Gaguejou.
A plateia lotada dividia-se em expectativa e risadas.
Ao suor, misturaram-se outros líquidos: lágrima e urina.
Olhou para os espectadores e viu seu pai e sua mãe, cheios de orgulho.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quando ele voltou

Após centenas e centenas de anos, gerações e gerações que tinham a certeza de que ele voltaria enquanto estivessem vivos, finalmente tal pessoa retornou.
A quantidade de pessoas que o haviam aceitado e seguido suas palavras em vida era muito superior àqueles que não acreditavam nele.
Pisando em terra e falando em língua universal, ele disse:
_Levarei comigo aqueles que mais precisam de mim, ou seja, aqueles que ainda não deram atenção verdadeira para minha palavra.Os que já me aceitaram em vida não precisam de mim, esses já estão salvos.
E levou consigo apenas aqueles que sempre o esnobaram e fizeram dele várias piadas.
Nos que aqui ficaram e que sempre o aguardaram, sobrou apenas uma sensação mista de satisfação e arrependimento. Teriam eles sido abandonados logo no momento que tanto aguardaram?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O cachorro que pensou que era gente

Ygor era um cãozinho muito esperto.Tão esperto que pensava que era gente.
Na cabeça dele os cachorros se chamavam seres humanos e os humanos se chamavam cachorro. Ygor pensava que era o dono das pessoas que cuidavam dele e que os cachorros eram os mais inteligentes do mundo, porque só eles conseguiam latir.
Quando Ygor via as pessoas indo trabalhar e estudar, ficava rindo porque ele não precisava fazer aquilo, a vida dele era só comer, dormir e brincar.
Uma vez Ygor viu o seu dono saindo de dentro de casa e pensou que ele tinha fugido, e começou a correr atrás dele latindo para ele voltar para dentro de casa.O dono ficou bravo com Ygor, pegou ele pela coleira e trancou ele na casinha de cachorro.Ele começou a latir mandando o dono soltá-lo, mas o dono não obedeceu e deixou Ygor preso.
Ygor ficou triste e pensou que estava sendo tratado como se fosse um cachorro.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Espirro

Numa espiral.
Foi assim que ele se sentiu quando percebeu que tudo tende a se repetir.O que mudam são as outras pessoas.
Numa experimental.
Pensou que poderia ser o objeto de um teste, no qual era colocado em situações que sempre voltavam a acontecer.
Num espirro.
Observou que mesmo quando não se está gripado, ele pode ocorrer.
Atchim!
Foi a última coisa que ele pensou.

domingo, 14 de novembro de 2010

Um sonho

Estava lá, no quarto de,e com, sua namoradinha, vendo filme e abraçados.
Saíram de bicicleta rindo à toa pelas ruas da cidade.Prometeu levá-la para ver tudo lá do alto, e ela topou.
Tomaram sorvete e, quando percebeu, estava novamente no quarto de, e com, sua namoradinha.Felizes e dessa vez vendo uma partida de futebol.
Estranhou o fato de seu amor gostar de futebol e quando percebeu estava novamente no seu próprio quarto, não havia namoradinha e a televisão, desligada.
Caiu a lágrima.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

No ritmo

Anos de estresse e de desapontamentos que ele resolveu engolir ao invés de soltar, ao invés de brigar, ao invés de demonstrar toda sua raiva de determinados momentos.
Isso fez com que a bola de neve dentro de si se tornasse tão grande que seu corpo passou a funcionar como um exoesqueleto de peculiares insetos que , ao ficarem muito grandes, realizam o fenômeno da muda, e saem de dentro do esqueleto.
Seu corpo havia se tornado o exoesqueleto onde sua acumulação de raiva estava prestes a tomar conta do seu ser.
Até que resolveu parar e apenas observar, e depois de tanto observar a única coisa que conseguiu achar foi graça.
Desencadeou à rir incessantemente e percebeu, naquele intervalo de tempo, que finalmente tinha conseguido entrar no ritmo.
Ligou o som no último volume, e pôs-se a dançar!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Descalço

Um dia lhe disseram para viver com os pés no chão. A partir desse dia ele só passou a andar descalço, algumas vezes pisou em fezes de animais e até de gente, outras vezes pisou em cacos de vidro, mas sempre seguiu com os pés no chão.
Atualmente seu pé é um couro grosso, que afiação alguma pode cortar, entretanto, ele não sente mais a sola do próprio pé, e descobriu assim, o verdadeiro sentido de estar descalço.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Maktub

Duas mil e doze pessoas foram lá para ver, mas parece que nada aconteceu.
Fixaram seus olhos para o céu durante toda a noite, esperando o sinal de um novo tempo, aguardando o instante que tinham certeza que iria acontecer ali, exatamente naquele céu, naquele ângulo, ao alto daquela montanha, em total concordância com o que estava escrito, previsto, profetizado.
Eles acharam que seriam salvos da destruição que viria naquela noite, porém, ao passar das horas, nada se via, nada se ouvia, nada havia.
Amanheceu o dia e todos voltaram, alguns ainda reciosos, para suas residências.Queriam reticências, evidências.
O mundo continuou o mesmo, até que alguns egiptólogos convocaram uma mega coletiva de imprensa, mostrando um novo documento que havia sido encontrado há um ano, porém, sua tradução foi completada na última noite. O documento dizia repetidas vezes numa mistura de hieróglifos com outras escritas da época: "A data mais aguardada está errada em um ano."
A profecia original não fora feita por egípcio algum, mas ainda assim, as duas mil e doze pessoas puseram-se a aguardar, para se agradar, se grudar.


Thiago dos Reis Carriço

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A sensação

Subiu.
Não o mais alto que pôde, mas o mais alto que aquela montanha podia lhe proporcionar.
Olhou.
Não o mais longe que pôde, mas o mais longe que a paisagem podia lhe proporcionar.
Sentiu.
Não o mais forte dos sentimentos, mas a mais forte sensação que dali de cima, alguém seria capaz de sentir.
Sorriu.
Não o mais belo dos sorrisos, mas o mais belo que aqueles seus dentes incompletos e frágeis, podiam lhe proporcionar.
Bebeu.
A garrafa vazia.
Abraçou.
A si mesmo.
Desceu.
E voltou para sua terra, onde todos achavam que ele era feliz.
Olhou.
Em direção a montanha que acabara de descer.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

As crianças e o cãozinho

Certo dia, os irmãos Zezinho e Joaninha encontraram um cãozinho abandonado na rua, e como adoravam animais, resolveram levá-lo para casa.
Chegando a casa, a primeira reação da mãe deles foi que colocassem o filhote de volta na rua, pois ali ele não ficaria de jeito nenhum. E os dois começaram então a pensar num jeito de não largarem totalmente o cachorrinho ao relento. Até que Joaninha lembrou que próximo à escola havia uma casa de ração onde eles vendiam cachorros e, se pusessem o filhotinho lá, poderiam vê-lo todos os dias, e foi isso que fizeram.
Diariamente, os dois iam até a casa de ração para brincar com o cachorrinho. Porém, um dia, quando lá chegaram, não viram mais o filhote. Havia sido vendido. Nos dois, a leve sensação de arrependimento por terem colocado o cãozinho à venda.
Ao voltarem tristes para casa, Zezinho ouviu um latido familiar e, ao olhar ao seu redor, percebeu que o comprador tinha sido o vizinho, um coreano que havia acabado de se mudar para lá.


Thiago dos Reis Carriço
29/02/08


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Leito de morte

Viveu da melhor maneira possível, mas não viveu a mesma quantidade de tempo que muitos outros vivem, mesmo sem produzir nada.
Sua vida era beber. Até que um pequeno incomodo físico foi clinicamente revelado como a sua contagem regressiva. Teria apenas mais dois meses de vida.
No último dia, nem os mais próximos acreditavam que aquela vitalidade toda se encontrava naquele estado.
A vida estava evaporando.
Fez o seu último pedido:
_Traz pra mim uma garrafa de whisky, copo para todos, e os encha.
Foi o último brinde.Mas antes do último gole, seu coração encerrou as atividades.
Seus amigos ficaram lá, um olhando para a cara do outro.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O príncipe jumento .

Melissa era linda.
Seus pais eram durante 36 anos, os reis de seu país. Davam a ela tudo que quisesse, todavia, Melissa matinha-se alheia a todo o reinado de seus pais , e preferia ficar na fazenda que tinham, à quilômetros do reino, cuidando dos muitos animais que ali havia.
Quando Melissa completou seus 23 anos, seus pais entenderam que era hora de arranjar para ela um noivo. Melissa aceitou a ideia, até por que, foi criada com a concepção de que, no máximo aos 24, seria a hora ideal para uma princesa arranjar seu príncipe encantado.
Foi marcada, portanto, uma cerimônia de casamento com o mais belo jovem da nobreza, um rapaz no qual Melissa conhecia desde a infância.
Ocorreu uma bela festa, com os mais belos e deliciosos recursos e bufês, convidados de honra, inclusive os que a princesa fez questão de convidar: os fazendeiros humildes e pobres que a ajudavam a cuidar dos animais.
Três meses depois do casório, Melissa se separou do marido e disse que não era aquela vida que queria, alegou que embora seus pais tivessem de tudo e do melhor, ela era diferente, disse que o príncipe escolhido não correspondeu ao que ela esperava. Disse ainda que o principal motivo fora a falta do lado menos privilegiado da sociedade.
Melissa era uma plebeia no posto de princesa, pensou o rei.
Os monarcas não queriam ver sua filha triste e não contrariaram a ideia da princesa humilde. Deixaram bem claro a ela que seu destino seria escolhido por si mesma.
Melissa então tomou uma dura e inesperada decisão. Abandonou o castelo, pois a fazenda era seu lugar.
E uma vez por semana, a princesa fazia uma visita a seus pais. Chegava hilariamente montada no jumento, seu animal preferido desde os tempos de mocinha.


Thiago dos Reis Carriço
27/12/08